Você conhece a dupla poda ou inversão do ciclo da videira?

Em todo o mundo, o ciclo da uva é parecido: poda no inverno, colheita no verão. Contudo, na maioria das regiões vitícolas brasileiras o período de colheita das uvas coincide com a época de maior intensidade de chuvas – o verão –, condição que afeta negativamente a qualidade dos vinhos obtidos, em especial a dos vinhos tintos. A ocorrência sistemática de dias chuvosos ou com alta nebulosidade, aliada às temperaturas ambientais elevadas prejudica não só a maturação das uvas, mas também a sua sanidade devido à ocorrência de inúmeras doenças fúngicas nos cachos. Um dos maiores desafios da viticultura brasileira é justamente identificar regiões onde existam condições climáticas ideais para o bom desenvolvimento da Vitis vinifera, espécie de videira exclusivamente utilizada na produção de vinhos finos.

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Minas Gerais pode ser uma dessas regiões. Estudos e trabalhos realizados em cooperação entre a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e produtores de uva da região sul do Estado descobriram o potencial de Minas para a elaboração de vinhos finos. As melhores regiões produtoras de vinho do mundo reúnem as mesmas condições climáticas, na época da colheita, encontradas no inverno do sul de Minas: dias ensolarados, baixas temperaturas à noite e pouca chuva.

Cada um desses aspectos determina a qualidade do vinho. O dia claro influencia no açúcar acumulado nos cachos: dias nublados, baixa fotossíntese, pouco açúcar; dias claros, alta fotossíntese, mais açúcar. As baixas temperaturas noturnas, por sua vez, favorecem a síntese e acúmulo de polifenóis, que ditam a intensidade da cor do fruto e a produção de tanino, substância essencial para uma boa estrutura do vinho. Já a baixa umidade é importante porque evita o aparecimento de doenças, como a podridão dos cachos. A maturação também é mais intensa quando a falta de água ameaça a uva. Por um mecanismo natural de sobrevivência, a videira manda todos os nutrientes para o cacho – um processo que visa a proteção e o desenvolvimento do envoltório das sementes, a uva.

Mas para fugir da chuva na colheita é preciso investir na inversão do ciclo da videira, fazendo um manejo de podas diferenciado, para que a planta possa frutificar no inverno. Basicamente, são feitas duas podas: uma em agosto e outra em janeiro. A primeira poda, em agosto, é feita para a formação de ramos produtivos. Em janeiro, faz-se a poda efetiva de frutificação. A planta, então, começa a brotar em fevereiro, floresce em março e em abril os cachos começam a se formar.

Nas regiões vitícolas do sul do País, alterar o ciclo da videira não é possível em função das baixas temperaturas dos invernos. Nas regiões do Nordeste, com temperaturas excessivamente elevadas, não ocorre amplitude térmica entre noite e dia. Essa é uma vantagem do Estado de Minas Gerais.

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Os experimentos com a inversão do ciclo da videira tiveram início há mais de dez anos. O deslocamento do ciclo da planta através da poda permitiu maior avanço na maturação das bagas com reflexos positivos na composição físico-química dos vinhos. Além disso, os vinhos elaborados a partir de uvas colhidas no inverno apresentam maior conteúdo de compostos fenólicos e índice de cor, além de não haver necessidade de adição de açúcar (com o objetivo de elevação no teor potencial de álcool). Estas condições conferem maior qualidade ao vinho e maior potencial de guarda.

A produção de uvas para vinhos finos, seguindo-se o modelo de inversão do ciclo da videira, no estado de Minas Gerais ainda é pequena, porém as expectativas sobre seu potencial de expansão são altas. Nossa fazenda, parceira da Epamig na implantação desse sistema de cultivo de uvas viníferas, trabalhava anteriormente apenas com culturas tradicionalmente mineiras, como gado de leite e café, tendo sua produção alterada após a percepção do potencial para viticultura na propriedade. Afinal, se a bebida produzida tem qualidade, há espaço no mercado para ela.

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